domingo, 13 de novembro de 2022

UFMG PELO MUNDO: o importante papel dos pesquisadores da Universidade no contexto mundial

Por Aline Assis, Augusto Oliveira, Thais Hott, Vitória Pessoa

Apresentação de pesquisa de Ângela Marques na França em 2020 / Foto: Cedida pela entrevistada

Para se fazer ciência no Brasil é necessário trilhar um longo caminho e enfrentar várias barreiras, como a diminuição do financiamento para pesquisa, baixa remuneração e nos últimos anos, com uma grande ajuda da pandemia, uma crescente desvalorização do trabalho científico. E a UFMG tem se mantido como uma forte fonte de pesquisa científica e se destaca como uma das melhores universidades do Brasil e do Mundo. Segundo o Ranking THE, a Universidade ostenta o título de melhor universidade federal do Brasil e a 5ª melhor da América Latina e está entre as sete universidades brasileiras mais bem avaliadas no QS World University Rankings 2022. Isso tem refletido na vida de pesquisadores, docentes e alunos. Apesar de enfrentarem os efeitos do sucateamento das universidades pelo Governo Federal nos últimos anos, os pesquisadores da universidade mineira têm mantido relevância no cenário internacional. Para explorar os efeitos dessa exposição internacional e como ela se manteve mesmo com numerosos cortes para trabalhos desse tipo, foram colhidos depoimentos da professora doutora Ângela Marques.


Os pesquisadores brasileiros enfrentam dificuldades nas políticas públicas destinadas à ciência. Apesar de o Brasil possuir alguns programas para ajudar pesquisadores e contar com órgãos como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC), ainda há lacuna no investimento nacional para cientistas, falta incentivo e suporte às políticas públicas e aos pesquisadores. Além disso, os pesquisadores também contam com o Ministério da Ciência e Tecnologia, porém o País permanece na defasagem no que se refere a apoio científico. A prova de que o financiamento público é menor do que o necessário se dá na cultura de negacionismo científico, a falta de empregabilidade para a área e a desmotivação para seguir carreira científica. Tal desvalorização se mostra nos rankings mundiais, no qual o Brasil não ocupa posição de destaque na produção científica brasileira, apesar de possuir um território vasto e recursos mais que suficientes.


No período demográfico, a população economicamente ativa é em grande parte jovem, no entanto ainda há desvalorização dos recém-formados na remuneração e contratação em empregos formais. Assim, embora possuam grande potencial de contribuir para o Produto Interno Bruto brasileiro e para o desenvolvimento da nação, não há reconhecimento devido à carreira, ou oportunidades de trabalho e desenvolvimento profissional. A professora doutora do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais afirma a importância do suporte governamental para a produção: “(...) Esse foi um projeto de pesquisa que teve o amparo de uma agência de fomento do governo que se chama CNPQ, que é o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, que é uma bolsa que eu recebi durante dois anos, que foi posteriormente renovada. Sem essa bolsa não teria tido condições de levar adiante a pesquisa, porque foi através dela, que eu consegui comprar os direitos de difusão de algumas imagens, para publicar os nossos trabalhos e fazer a difusão científica da pesquisa. (...) Essa bolsa também foi fundamental para pagar o apoio de 2 bolsistas de iniciação científica que me auxiliaram. Posteriormente a pesquisa também teve apoio da Fapemig, que é uma agência de fomento à pesquisa de Minas Gerais e então comprar equipamentos. Um computador e também um scanner para no início da pesquisa fazer a digitalização dos materiais”.


Mas apesar das visíveis dificuldades enfrentadas pelos pesquisadores em seu percurso até o meio internacional e sua estadia neste, esses profissionais não se deixam vencer por esses obstáculos. São inúmeros projetos e estudos realizados pelos pesquisadores da UFMG, mesmo com os sucateamentos aos suportes à pesquisa, especialmente financeiros. Essa resistência científica é uma forma de garantir o progresso da ciência brasileira e a manutenção de seu espaço internacional, contando com todos os meios possíveis de auxílio para mantê-los, desde o investimento próprio à colaboração internacional, quando enfraquecida a assistência governamental. Ângela Marques conta, também, sobre o seu amplo contato com outros brasileiros nesses espaços, mostrando que a realidade é mais positiva do que se imagina. “Eu tive a oportunidade duas vezes de apresentar esse trabalho [O enquadramento biopolítico de pessoas empobrecidas entre o governo dos corpos e a biopotência de modos de vida na imagem fotográfica] na França e lá eu encontrei vários pesquisadores brasileiros, que através do investimento do governo brasileiro foram apresentar seus trabalhos e foi uma experiência muito gratificante, porque saber que o nosso trabalho não só é reconhecido nacionalmente, como também internacionalmente e ter essa oportunidade de levar um pouco das nossas experiências para lá e posteriormente sermos publicados em outras línguas”. 'O enquadramento biopolítico de pessoas empobrecidas entre o governo dos corpos e a biopotência de modos de vida na imagem fotográfica' foi o projeto desenvolvido pela doutora Ângela Marques que ganhou destaque internacional. O projeto intenciona analisar por outro ângulo as imagens do programa Bolsa Família entre 2003 a 2017; a ideia era retratar as mulheres beneficiárias do programa com dignidade e autonomia, a fim de ressignificar suas imagens e negar estereótipos atribuídos a essas pessoas. Com o suporte governamental, que foi essencial nesse processo, Ângela Marques foi uma das pesquisadoras brasileiras da UFMG a provar que o prestígio brasileiro é capaz de ultrapassar as fronteiras nacionais. 


Bem se sabe que as Universidades Federais do país são as grandes responsáveis pelo funcionamento da gigante roda da pesquisa nacional. Um exemplo notável de sua extrema relevância, especialmente para o mundo como um todo, é a produção da vacina contra a Covid-19 Spin-Tec-MCTI-UFMG, criada pelos pesquisadores do Centro de Tecnologia de Vacinas (CTVacinas) da UFMG. Mesmo dentro das atuais condições de pesquisa nacional, os profissionais brasileiros evidenciam frequentemente seu alto nível de contribuição científica e, consequentemente, a necessidade urgente de um olhar mais interessado dos órgãos governamentais e mesmo das entidades privadas para valorizá-los.


É importante que essa perspectiva assertiva seja difundida para que os futuros pesquisadores e aspirantes não se deixem desanimar pelo lado negativo da área no Brasil. Mesmo que em circunstâncias diferentes, é crucial que esses pesquisadores em potencial tenham contato com os profissionais para que se formem referências nacionais e possíveis vínculos e tenham a sua ambição estimulada. A falta de acesso à realidade da pesquisa é, inclusive, um dos problemas que leva ao desmonte da atividade científica nacional. Nesse sentido, Ângela deixa uma dica aos futuros pesquisadores do país: “Eu acho que a principal chave dessas colaborações internacionais é estar em grupo… É pertencer a uma coletividade, porque sozinhos nós não conseguimos manter uma colaboração de longo prazo. É preciso, então, encontrar um grupo. Então, vamos dar um exemplo aqui: na UFMG, um estudante que está iniciando a pesquisa na iniciação científica, ele está dentro de um grupo de pesquisa. E esse grupo de pesquisa fez um projeto para colaborar com um grupo de pesquisa na Europa ou na América Latina. Então, é importante que esse pesquisador iniciante se insira num grupo capaz de levar adiante a cooperação, porque senão os contatos vão se dissolvendo. As pessoas já têm muitos projetos nos seus próprios países, na sua própria universidade e, com os desafios do dia a dia, a colaboração acaba se dissolvendo”.


Como exposto, o Brasil é um país de grande cultura e potencial de desenvolvimento, com uma população capaz de inovação e criatividade, com o incentivo financeiro adequado, é possível desenvolver a nação por meio da ciência de alta qualidade, beneficiando na economia, educação e nas diversas áreas de atuação. É extremamente necessário que a juventude busque a carreira dentro do país, sem que haja a “fuga de cérebros”, e para isso é preciso expandir os horizontes e as oportunidades fazendo com que em breve os que almejam a ciência possam ter novas conquistas.


Veja mais: confira a entrevista completa da Professora Doutora Ângela Marques.