COMPLETA: Entrevista de Ângela Marques ao Representa

Ângela Marques em debate sobre comunicação pública / Foto: Foca Lisboa - UFMG

Qual seu projeto de pesquisa que ganhou destaque internacionalmente? 

"O projeto de pesquisa que ganhou destaque internacionalmente que eu desenvolvi se chama 'O enquadramento biopolítico de pessoas empobrecidas entre o governo dos corpos e a biopotencia de modos de vida na imagem fotográfica'. Era um projeto que tentava olhar para fotografias do programa Bolsa Família entre os anos 2003 e 2017. Então essas imagens foram selecionadas a partir de jornais como Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, revista Veja, revista Istoé, El País e outros periódicos de grande circulação nacional que têm reposição de imagens. O que que a gente buscava sobretudo como as mulheres que são beneficiadas pelo programa Bolsa Família eram retratadas nessas imagens e se havia a possibilidade delas contarem a própria história, de escaparem um pouco de um certo tipo de rotulação, muitas vezes é preconceituosa, que retira agência dessas mulheres para dizer que elas são completamente dependentes do Estado. Então a gente buscava ver nas imagens se havia a oportunidade ou a possibilidade dessas mulheres serem retratadas como mulheres dignas, que fazem suas vidas, que cuidam de seus filhos e que buscam cotidianamente reconstruir uma forma de vida e de sobrevivência em locais onde a pobreza é muito extrema."


O apoio do estado foi decisivo para que você conquistasse esse espaço?


"Com certeza, esse foi um projeto de pesquisa que teve o Amparo de uma agência de fomento do governo que se chama CNPQ, que é o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, que é uma bolsa que eu recebi durante dois anos, que foi posteriormente Renovada. Sem essa bolsa não teria tido condições de levar adiante a pesquisa, porque foi através dela, que eu consegui comprar os direitos de difusão de algumas imagens, para publicar os nossos trabalhos e fazer a difusão científica da pesquisa. Algumas revistas acadêmicas, só aceitam uma publicação de imagens quando o autor possui o direito de reprodução, então a gente tem que comprar esses direitos, mas não só isso, essa bolsa também foi fundamental para pagar o apoio de 2 bolsistas de iniciação científica que me auxiliaram. Posteriormente a pesquisa também teve apoio da Fapemig, que é uma agência de fomento à pesquisa de Minas Gerais e então comprar equipamentos. Um computador e também um scanner para no início da pesquisa fazer a digitalização dos materiais."


Você teve contato com outros brasileiros nessa mesma situação?


"Com certeza sim. Eu acho que o início da pesquisa ele tem uma maior projeção Nacional, mas depois os pesquisadores franceses se interessaram pelo trabalho e em uma parceria, uma colaboração, que já existia entre o meio de comunicação de Minas Gerais e a Universidade paris-saclay lá na França, houve o interesse de um grupo de pesquisadores para entender melhor, como é que é o papel das imagens nas pesquisas sobre vulnerabilidades e sobre a questão da tentativa de produzir figurações ou representações que projetem com maior dignidade sujeitos empobrecidos e mulheres empobrecidas no contexto sul-americano. Lá na França, eu tive a oportunidade de duas vezes de apresentar esse trabalho na frança e lá eu encontrei vários pesquisadores brasileiros, que através do investimento do governo brasileiro para apresentar seus trabalhos e foi uma experiência muito gratificante, porque saber que o nosso trabalho não só é reconhecido nacionalmente, como também internacionalmente e ter a oportunidade de levar um pouco das nossas experiências para lá e posteriormente sermos publicados em outras línguas. Embora eles demonstrem bastante interesse nas nossas pesquisas, muitas vezes esse interesse não gera desdobramentos de publicação e de interlocução, mas, nesse caso a parceria que nós estabelecemos com a universidade paris-saclay, já dura há mais de 6 anos, então assim prova, que não apenas o trabalho que a gente realiza, mas sobretudo a forma como a gente faz pesquisa é importante para constituir colaborações. Então, eu acho que a principal questão com relação ao contato com pesquisadores no contexto internacional não é apenas o tema da pesquisa, mas a maneira como a gente produz essas colaborações e esses vínculos, então tem pesquisadores de lá que você vai encontrar, vai apresentar o seu trabalho, vocês vão ter uma rápida conversa e o relacionamento acaba por aí. Mas tem pesquisadores com os quais a gente consegue manter uma troca mais duradoura. E aí, é nessas trocas que a gente precisa investir né, pessoas que estão ocupadas em desenvolver algo de longo prazo e a gente ter fôlego também para alimentar essas parcerias, porque não é nada fácil, com o ritmo de trabalho que nós temos cotidiano na universidade. Ter que dar aula, ter que fazer pesquisa, ter que colaborar com os nossos próprios colegas aqui, ainda reservar tempo para investir na colaboração internacional, não é uma tarefa fácil, nem simples."


Qual conselho você daria para um pesquisador iniciante que queira alcançar o meio internacional?


"Eu acho que a principal chave dessas colaborações internacionais é estar em grupo… É pertencer a uma coletividade, porque sozinhos nós não conseguimos manter uma colaboração de longo prazo. É preciso, então, encontrar um grupo. Então, geralmente, as colaborações de grupo a grupo, vamos dar um exemplo aqui: na UFMG, um estudante que está iniciando a pesquisa na iniciação científica, ele está dentro de um grupo de pesquisa. E esse grupo de pesquisa fez um projeto para colaborar com um grupo de pesquisa na Europa ou na América Latina. Então, é importante que esse pesquisador iniciante ele se insira num grupo capaz de levar adiante a cooperação, porque senão os contatos vão se dissolvendo. As pessoas já tem muitos projetos nos seus próprios países, na sua própria universidade e, com os desafios do dia a dia, a colaboração acaba se dissolvendo."


Qual a maior dificuldade que enfrentou sendo brasileira no espaço de pesquisa internacional?


"Eu acho que a maior dificuldade não é nem, assim, falar o idioma ou se comunicar com as outras pessoas, mas é a publicação dos resultados da pesquisa. A forma como que a gente publica aqui no Brasil, o jeito de escrever, a maneira que os periódicos científicos demandam que um artigo seja preparado é bem diferente da lógica europeia, por exemplo, ou norte-americana. E você tem que se adaptar ao tipo de escrita ou ao tipo de exposição dos resultados de pesquisa que eles solicitam. Então, escrever em outra língua, escrever academicamente em outra língua, sendo mais específica, é o maior desafio. Bom, novamente aí, como é que a gente vence esse desafio… Produzindo textos em conjunto. Hoje em dia, é muito difícil um pesquisador escrever um texto sozinho. Ele escreve sempre com seu grupo, com sua equipe, porque… O grupo ajuda, né, o texto ficar mais forte, mais sólido, e… O grupo, também, se preocupa e ajuda a colocar o texto nas normas acadêmicas de uma revista né internacional. Então, essa, pra mim, foi a principal dificuldade."


Como foi o tratamento que você recebeu enquanto brasileiro(a) internacionalmente?


"O tratamento foi muito bom. Acho que no meio acadêmico a gente não tem muito essa barreira do preconceito porque as pessoas com as quais eu tive contato estavam interessadas genuinamente no que eu estava fazendo. Então, mesmo a dificuldade de falar o idioma era alguma coisa que passava-se por cima, porque eles estavam interessados no conteúdo do trabalho, na metodologia empregada. Então eu senti o seguinte: que havia interesse, que havia uma abertura muito grande para a gente conversar, mas também uma expectativa de que a gente levasse adiante a continuidade. Acho que tem uma diferença muito grande nesse ponto, que a Europa ainda se vê como uma forte detentora de um conhecimento, de um saber fazer e que as pessoas dos países latino-americanos ainda vêm procurar na Europa uma coisa que eles não têm, uma coisa bem de colonizador, isso mais no geral. Agora, no mais específico, as pessoas com as quais eu convivi, os grupos com os quais eu convivi foram pessoas extremamente generosas, prova disso é que elas estão comigo até hoje, desde mais ou menos 2013, 2014, até hoje a gente faz as nossas colaborações, porque há um interesse recíproco no trabalho que um e outro fazem. Agora, essas colaborações de longo prazo precisam de uma qualidade de ambos os lados que é a generosidade, você produzir algo, compartilhar com outro, o outro produzir algo, compartilhar com você, não é uma característica de concorrência, mas de colaboração e generosidade, acho que a maioria dos casos em que a parceria dá certo nos dois lados, um foi generoso com o outro."


Houve mudança na relação com os discentes após essa conquista internacional?


"Acho que em termos de tratamento com os alunos, de forma alguma, continuo me relacionando com os alunos da mesma forma. Agora com relação aos ganhos acadêmicos, teve muitos ganhos, as aulas ficaram melhores porque a bibliografia se expande, a gente tem condição de fazer seminários e coloque-os com nossos colaboradores internacionais, então os alunos se aproveitam disso também, os meus alunos de iniciação científica, mestrado, doutorado, puderam aproveitar essa parceria. Dois alunos de doutorado foram para a França fazer e desenvolver suas pesquisas por causa dessa parceria, especificamente sob a orientação do Professor Jean-Luc Moriceau, que é o professor que coordena o projeto de cooperação internacional lá na França, então os alunos de mestrado e doutorado se beneficiaram fortemente dessa parceria. Acho que em sala de aula, na graduação, as aulas ficaram melhores, porque eu tive contato com conceitos, com formas de pesquisa, com materiais bibliográficos que permitiram uma riqueza do conteúdo que eu posso transmitir aos alunos e que posso partilhar com eles. Do ponto de vista geral, os ganhos são inúmeros."


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